12/08/16

Buteco de feira: Por Nal Nunes



BUXADA AZEDA

O deputado Carlos Batinga sempre foi um homem meticuloso em tudo que faz e, quando o assunto é culinária, sua exigência fica muito mais aguçada. Normalmente procura saber a origem das comidas postas em sua mesa.

Em 1995 durante a sua campanha para prefeito de Monteiro, lá estava Carlos Batinga, como todo político do interior, fazendo a tradicional peregrinação pelo voto. Visitar e almoçar nas casas dos matutos da zona rural sempre foi a principal estratégia para conquistar o voto do eleitorado humilde.

Pois bem, naquele domingo havia uma agenda pré-fixada para participar de um torneio de futebol num determinado sítio da zona rural de Monteiro, cujo prêmio principal seria o patrocínio de um padrão de camisas e uma bola de futebol.

A notícia da presença de Carlos Batinga correu veloz pela redondeza onde residia uma senhora que, não podemos revelar seu nome, porém, os mais íntimos a chamavam de dona Sebosa. Como fervorosa torcedora de Batinga se antecipou  para avisar ao seu ilustre candidato que o almoço seria na casa dela.

O motorista era Jurandir de Severino de Lídia, cabra de Boi Véi, conhecido pelo apetite voraz que sempre teve. 

Chegando a casa de Dona Sebosa, no terreiro havia dois meninos jogando bola com uma velha “canarinho” costurada de remendo por todo canto e também, como em toda casa do mato, uma parea de cachorro aparentando oito dias de fome. 

O cheiro da buchada se espalhava pelo terreiro e Carlos Batinga com o faro apurado indagou ao motorista: Tais peidando Jurandir?

-Não, é a buchada que tá no fogo...!
A recepção foi aquela festa. Prosas, abraços e promessas de ambos os lados marcaram o início do almoço de Dona Sebosa.
-A conversa tá boa doutor, mais se sente logo aí que eu já vou botar o almoço, eu fiz o que o senhor mais gosta de comer, uma buchada.
Ao lado da mesa havia uma janela, justamente o lugar onde Jurandir montou assento.
Não demorou e aquele mesmo aroma do terreiro tomou conta da farta mesa de Dona Cebosa, que orgulhosamente dizia:
-Ói pessoal, esse bucho aqui é para meu prefeito, vão comendo outros pratos que esse aqui é só prá ele!
Carlos Batinga, sob o olhar agradável de Dona Sebosa, tratou logo de servir seu prato com arroz e verdura, deu uma tapeada com um enroladinho e como bom estrategista sugeriu:
-Olhe, aqui tá tudo uma beleza, mas se não for incomodo eu queria pedir um pirão, a senhora faz?
-Oxente! Só se for agora doutor... vai Zé, bota mais lenha no fogão! E já foi logo em saindo em direção à cozinha preparar o famoso pirão. 
Naquilo Carlos Batinga apressou-se:
-Vai Jurandir, come logo esse bucho ligeiro!
-Deixe comigo!
Jurandir só fez estralar o dedo para veludo que estava se acabando de fome no terreiro e não deu dois minutos que já havia devorado tudo. Do lado de fora, os meninos curiosos assistiam aquela cena suspeita.
Mas Dona Sebosa não se cansava de trazer mais bucho.
-Ói doutor, trouxe mais um bem quentinho pro senhor!
-A senhora tem limão?
-Aqui não doutor, mais a vizinha aqui tem um pé, eu vou buscar, é prá já!
Jurandir novamente entra em ação e dar sumiço aos pratos de buchada.
Terminada a refeição, Dona Sebosa com um sorriso de canto a canto, justifica sua alegria:
-Mais doutor, eu tô muito satisfeita. Eu acertei ter feito essa buchada, o senhor comeu todinha...não sobrou nada!

Pois é, buchada não é todo mundo que sabe fazer não! Tava boa demais!
Enquanto isso, Jurandir se levanta e vai ao encontro dos meninos que fizeram logo uma ameaça. 

-Ei, eu vi o senhor jogando a buchada prá veludo, vou dizer a mãe!
-Cala essa boca menino. Toma essa bola de couro e fica calado!

Nenhum comentário:

Postar um comentário