24/09/2017

Ler é recriar

Por Luiz Carlos Amorim

Sempre defendi que precisamos lançar mão de toda e qualquer alternativa para difundir o hábito da leitura. E penso que não é só a escola que tem a responsabilidade de ensinar os leitores em formação a ter gosto pela leitura. A família também tem papel muitíssimo importante nesse sentido, pois o exemplo dos pais, principalmente, quase sempre é seguido pelos filhos. O livro em casa, o livro nas mãos dos pais, o livro perto da criança, ao redor da criança, como caminho para levar a criança a ter curiosidade pelo seu conteúdo e gostar de ler já foi assunto de outra crônica nossa. 

Mas não é só isso. Muitos adultos não gostam de ler. Talvez por terem parado de estudar, ou porque foram obrigados a ler algum livro a contragosto quando muito jovens ou por nunca terem tido oportunidade, por qualquer razão, de conhecer algum gênero literário. Nesse caso, a empresa onde esse adulto trabalha pode ajudar, de várias maneiras. Ministrando cursos de aperfeiçoamento profissional, oferecendo bibliotecas e divulgando os títulos disponíveis, dando incentivo a talentos artísticos da casa, propiciando a volta aos estudos.

A propósito disso, lembro que tive um bom exemplo na empresa onde trabalhava. Para comemorar o aniversário da dita empresa, além do Baile de confraternização, foi instituído uma semana de exibição de obras da “prata da casa”. Os produtores de qualquer tipo de arte – música, literatura, artes plásticas, teatro, fotografia, poderiam mostrar o seu trabalho. Eu, claro, levei poemas, um em cada folha, com letras maiores, que foram colocados em um tipo de galeria, junto com poemas de outros funcionários, pinturas, desenhos, etc, ao longo das paredes, pelos corredores.

O que me surpreendeu, em primeiro lugar, foi o fato saber que pessoas que eu nem imaginava, escreviam e escreviam bem. Em segundo lugar, muita gente que eu não esperava que gostasse do gênero, veio falar comigo a respeito dos poemas expostos, provando que os leram e afirmando que gostaram. Fiquei feliz, não só porque meu trabalho os atingiu, mas porque consegui fazer novos leitores para um gênero quase maldito.

E resolvi escrever essa crônica por um fato que se me revelou curioso. Algumas colegas de trabalho, estudantes, sabendo do lançamento dos meus livros na Feira do Livro de Florianópolis e lendo meus poemas nos corredores da nossa empresa, pediram-me que lhes trouxesse pelo menos um de meus livros. Para uma delas, dei o livro “A Cor do Sol” – poemas, que não é o mais recente, mas é um livro do qual gosto, particularmente. 

No dia seguinte, uma delas contava para todos do ambiente de trabalho, que na volta para casa, no dia anterior, ela começara a ler o livro no ônibus e quando se deu conta havia passado do ponto. Segundo ela, empolgou-se na leitura, ligou-se tanto nos poemas que acabou tendo que andar, pois desceu alguns pontos além do seu. 

É muito gratificante ter esse feed back do leitor, saber que a nossa maneira de ver a vida, o mundo, está se identificando com o leitor, que a sua mensagem está chegando, que o objetivo está sendo alcançado.

Uma situação como essa, acontecida com alguém que dizia odiar ler, é muito significativa. Às vezes é muito bom saber que estamos no caminho certo. Que a nossa emoção está chegando ao coração de alguém.

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